segunda-feira

Pessoal... O coelho da Ana... faz oito anos! Por isso anda um pouco mais para baixo e põe a música a dar antes de começares a ler o texto.

Hoje é segunda-feira. Nem sei porque é que vos informo. O título do post indica-vos isso mesmo. Mas enfim, hoje é segunda-feira, e após algum tempo, vou atrever-me a deixar as short storys e afins em banho Maria para um pequeno momento de insanidade mental.
Estou farto de falar de mim, mas igualmente sinto saudades de não falar de mim. Bem sei que a minha vida se pode tornar desinteressante, principalmente quando te pões a ler nas entrelinhas dos meus textos e percebes que há armários com pequenas crianças que espreitam pelo buraco da fechadura, que jogam às escondidas contigo, à espera que tu as encontres.
E cá estou eu. A tratar-te por tu. Não sei que idade tens. Não sei se és demasiado novo, não sei se és demasiado velho. Não sei se és rapariga, se és rapaz. Nada sei sobre ti. Porque tu tens tantas caras. Tu leitor, tens tantas caras. E tantas são tão poucas. Mas, apesar de tudo, eu sei que tanto podes ser rapariga como rapaz, tanto podes ser homem como mulher, ou até criança. Tanto podes estar a beber água como a beber vinho.
Sabes?, há alturas na tua vida em que tens de fechar muitos os olhos e ser criança por uns segundos. Imaginar que quando voltares a olhar para o mundo estás noutro local diferente daquele em que te encontravas antes de sonhares acordado. Precisavas de te afastar, por um momento, das presas invisíveis que te prendem à rotina, ao normal, ao habitual. Precisas de refrescar as ideias, por um pouco.
Pára. Pára por um pouco. Por um pouco pára de ler.

Agora que já fizeste uma curta pausa já posso continuar. Numa das minhas epifanias nocturnas, acompanhadas por longas insónias, apercebi-me de uma coisa muito importante. E é isso que agora me ajuda a conseguir aguentar de cabeça erguida os obstáculos que tentam todos os dias derrubar-me. Tu és herói. És herói da história da tua vida. Nunca te esqueças disso. E os heróis também sofrem. Os heróis também choram. Os heróis também são como tu. E tu como os heróis.

:)

Desculpa o momento de insanidade mental. Prometo-te que será longo. Devias experimentar, também. Só precisas de pegar numa caneta e num papel e começar a escrever.

Ah, e prometo-te que as short storys voltam. Ainda hoje.
A falta de personalidade é um problema... tipo... grave.

domingo

Calma, não fechem já a janela. Eu sei, o tema parece um pouco chato e assim, mas eu hoje vou falar-vos sobre a minha opinião em relação a todo este aparato em torno da homossexualidade.
Recentemente, ouvi um cromo qualquer na televisão heterossexual a dizer que os homossexuais eram esquisitos. Pois bem, eu (heterossexual) devo dizer que acho que os heterossexuais também são completamente esquisitos. Vejamos: Uns só gostam de gente do mesmo sexo. Outros só gostam de gente do sexo oposto! Se formos a ver, as únicas pessoas ditas "normais" são os bissexuais! Porque eles é que gostam de tudo! Sejam rapazes, sejam raparigas eles é que são os "normais". Nós parece que nos meteram carne e peixe no prato e nós pomo-nos a escolher se preferimos carne ou se preferimos peixe. Já os bissexuais não pensam duas vezes antes de provarem um pouco de cada e depois limparem o prato.
É, todo este aparato em volta do casamento homossexual e tudo mais tem sido bastante estúpido. Se há alguém que tem direito a pronunciar-se (e mesmo assim, tento na língua) são os bissexuais. Mas enfim. Os heterossexuais acham-se superiores... Só tenho mais uma coisa a dizer: bissexuais ao poder. Decidam vocês o que querem que aconteça (tenho a certeza que eles não se importam. Porquê? Porque não são esquisitos).

E agora, ainda queres usar o argumento de que os homossexuais não se podem casar porque ser heterossexual é que é normal?
Descalça-te. Não, a sério. Faz o que digo. Descalça-te. Sente o chão frio por baixo dos teus pés. Se estiveres sentado levanta-te. Deixa que o peso do teu corpo caia sobre os teus pés. Estás a sentir? Não consegues aguentar-te em pé, pois não? Pois bem, psicologicamente também te sentes assim.
Tiveste coragem. Tentaste. Era o que um bom pai faria. Era o que qualquer pessoa faria naquela situação. Um dia, tu amas a tua mulher acima de qualquer coisa. No dia a seguir, leva-la para o hospital, porque rebentaram as águas e está na hora de mais um milagre da vida. De seguida, ela pensa que tu a traíste, bate na tua filha e pede o divórcio. Ultimamente, pedes a custódia da tua pequena, e infelizmente, não a consegues, porque és um traidor mulherengo que certamente não será capaz de cuidar da filha.
Não. A tua vida está de pernas para o ar e tu não sabes o que fazer. Cantarias e tocarias, se ainda tivesses guitarra. Mas a outrora mulher dos teus sonhos (actualmente mulher dos teus pesadelos) tornou esse teu desejo impraticável. Ligar à tua filha, que é quem mais queres ouvir naquele momento, também não podes, porque ela não tem telemóvel próprio e quem vai atender o telefone fixo com certeza é a pessoa que menos queres ouvir. Então, tomas o proveito daquilo que tens fama. Vais a um bar, entras, e pedes um whisky duplo com gelo. Mas aquilo é demasiado fraco para ti, e tu percebes ainda mais isso quando chega um jovem (acompanhado pela namorada?) e ordena ao barmen que lhe sirva dois shots. Ele serve o casal e volta para o lava-loiça, para lavar uns poucos copos sobre os quais poisavam uns quantos pratos onde tinham sido servidos camarões ou algo do género. Nunca foste bom a distinguir mariscos, portanto ficas na dúvida. Enfim, após o compasso de espera em que observaste o homem, já com uns poucos cabelos brancos (como tu terás daqui a uns anos) a curvar-se diante da pia, a esfregar a sujidade que teimava a sair. Mas... Qual o interesse disso? Qual o interesse de ver um velho a lavar a loiça? Tal como aqueles utensílios de cozinha teimosos, a tua ex-mulher é como sujidade que teima em sair: por mais que tentes, ela não arreda pé. Às vezes, nem com desengordurante. Ou advogado. Enfim, chama-lhe o que quiseres.
Pedes, por fim, um shot. E mais outro. E outro, e outro, e outro. Quando dás por ti, já não estás em condições para conduzir. Ligas ao teu melhor amigo, que é um pouco mais novo que tu, mas ele rapidamente te despacha pois está a meio de uma boa queca. Não queres ligar aos teus pais porque eles estarão demasiado ocupados a curtir as férias no Algarve. Só te resta uma opção: o teu irmão. Que é igualmente o teu advogado. Porra, pensas. Estás lixado. Como é óbvio não vais ligar ao teu advogado a dizer que foste embebedar-te para um bar porque ele perdeu um caso. Porque já nem pensas no facto de ele ser o teu irmão.
A tua única solução é conduzires tu. Deixas o bar, por fim, e procuras as chaves lentamente no fundo do bolso direito dos calções. Quando vais para abrir o carro, paras para pensar. Mesmo bêbado, estás a conseguir estar minimamente lúcido. Se conduzires terás certamente um acidente. E aí, mesmo que sobrevivas, sabes que perdes a tua filha para sempre. Então, atiras-te ao chão. E deixas-te ali ficar. Porque o mais importante é teres a tua filha. Dormitas um pouco, ou alucinas, melhor dizendo. Mas lá está, a tua filha é o mais importante. Então, levantas-te do chão, ergues-te de uma só vez e dizes:
- Eu não vou desistir.
E abres o carro. E então...

Ligas o carro. Partes sem olhar para trás. Metes os headphones nos ouvidos. Ligas a música. Apesar de tudo, sabes que alguém te chama, mas não abres o vidro nem olhas pelo espelho retrovisor para confirmar. Só queres pressionar o pedal e seguir em frente. É isso que fazes. Mais uma vez, foges. Não olhas para trás. Partes sem olhar para trás. Tal como "no tempo dos assassinos", tens uma força que te faz seguir em frente. Pões músicas do disco do Jorge Palma a tocar. Do melhor álbum dele. Aquele álbum que te deixa a cabeça num sítio qualquer que nem os teus olhos vêem. Aquele lugar que a tua mente cria. Aquele lugar pacífico onde ouves o mar e os passarinhos a cantar. Aquele lugar verdejante cheio de pequenos bichos do mato que tentam alcançar-te. Alguns, conseguem ultrapassar a barreira que criaste, outros perdem-se no tempo, na passagem, no processo. Uns sabem que és indefeso e avançam. De alguns gostas, e deixa-los passar, até ao momento em que te apunhalam pelas costas. Outros, escondem-se nos alimentos, no pão nosso de cada dia, naquilo que te mantém vivo todos os dias da tua vida.

Mas encostas o carro, durante um pouco. Tu sabes quem te estava a chamar. Era o barmen. Ele sabia que tu beberas demasiado, e estava para te ir dizer que tomara a liberdade de te chamar um táxi. Mas não queres saber. Queres ir para casa, dormir e pôr-te sóbrio, para continuares na luta pelo que é teu por direito.
Metes o pé bruscamente no acelerador. Manténs uma velocidade constante de 80 km/h dentro de uma localidade. Do outro lado da estrada, repentinamente, aparece um carro, acabado de sair da curva, com os máximos ligados. A luz cega-te.

A tua vida continua, descrita em palavras. E agora? O que acontece agora? O que achas que acontece agora?

quarta-feira

Ligas o carro. Partes sem olhar para trás. Metes os headphones nos ouvidos. Ligas a música. Apesar de tudo, sabes que alguém te chama, mas não abres o vidro nem olhas pelo espelho retrovisor para confirmar. Só queres pressionar o pedal e seguir em frente. É isso que fazes. Mais uma vez, foges. Não olhas para trás. Partes sem olhar para trás. Tal como "no tempo dos assassinos", tens uma força que te faz seguir em frente. Pões músicas do disco do Jorge Palma a tocar. Do melhor álbum dele. Aquele álbum que te deixa a cabeça num sítio qualquer que nem os teus olhos vêem. Aquele lugar que a tua mente cria. Aquele lugar pacífico onde ouves o mar e os passarinhos a cantar. Aquele lugar verdejante cheio de pequenos bichos do mato que tentam alcançar-te. Alguns, conseguem ultrapassar a barreira que criaste, outros perdem-se no tempo, na passagem, no processo. Uns sabem que és indefeso e avançam. De alguns gostas, e deixa-los passar, até ao momento em que te apunhalam pelas costas. Outros, escondem-se nos alimentos, no pão nosso de cada dia, naquilo que te mantém vivo todos os dias da tua vida.
Metes o pé no travão bruscamente. Deixaste em casa o mais importante. Fazes inversão de marcha e manténs uma velocidade constante 80 km/h dentro de uma localidade. Esperas não encontrar ninguém pela frente pois precisas desesperadamente daquilo que te esqueceste por cima do guarda-fatos. Ou lá dentro.
Chegas a casa, e lembras-te que deixaste as chaves no tablier. Voltas ao carro, abres a porta das traseiras à bruta e invades a casa onde já não moras. Onde moraste, um dia, mas já não queres viver lá. Nem quem lá vive te quer mais. Nem tu a ela.
Chegas ao quarto. Em cima da cama está o vestido de noiva dela. Aquele longo vestido branco que ela usou na altura em que ainda gostava de usar o cabelo solto. Porque sabia que tu gostavas de ver aqueles longos cabelos castanhos escuros a esvoaçar por trás da sua nuca. Ao lado, está o biquini que ela usou na vossa lua de mel. Abres o guarda-fatos à procura do que lá deixaste. A tua guitarra não está lá. Onde devia estar. Onde tu tinhas deixado. Aquela guitarra que usaras mil e uma vezes para compores músicas de amor, de amizade, de alegria ou tristeza. Até declarações de amor. Aquela guitarra que usaras nas melhores alturas da tua vida. Olhas melhor lá para dentro. Vêm-te tantas memórias despedaçadas pelo tempo à tua cabeça. Parece que estás a olhar para um holograma.
Ouves algo a partir na rua. Corres para a janela. Ela está a fechar o caixote do lixo. Lá dentro está a tua vida. Partida ao meio, a tua guitarra parece que tem o sorriso rasgado, a pele suja e a cara partida. Que dor tens no coração. Parece que uma seta o atravessou.
Sentas-te no chão, ao pé da cama onde fizeram sexo mil e uma noites. Onde uma árvore deu frutos. Por aquele quarto uma vez a tua filha de 5 anos actualmente (aquela filha que a tua ex-mulher conseguiu privar-te de ver) entrou a correr, sorridente, e se atirou para cima da cama, para o pequeno espaço que havia entre os seus pais.
É. Uma vida inteira aconteceu ali. E agora tens de deixar tudo para trás. Até a tua própria vida. Caída, rendida, partida, no caixote do lixo. A outra parte da tua própria vida, fica presa nas garras da mulher que um dia jurou amar-te para sempre. E assim vai ficar, até deixares de ser cobarde e começares a lutar pelas coisas que são tuas. Por direito. Pela tua vida.
- Eu quero é que ela se lixe.
E levantas-te do chão, para ligares à tua advogada.
- Não te preocupes, filha. Em breve o pai vai levar-te para casa. Para onde pertences.

A tua vida, descrita em palavras.

segunda-feira

Short story number two - Time to turn into dust

Ela olhava-o especada, petrificada, com o cabelo à frente dos olhos. Ela via algo que queria ver todos os dias da vida dela. Ela via o amor da sua vida, que vestia fato e gravata, pela primeira vez na sua vida. Com o cabelo todo despenteado, lá estava ele, mudo, surdo, cego, à espera que ela dissesse alguma coisa. Ela não conseguiu falar, e soltou apenas uma lágrima. A lágrima rolou pela sua face rosada, e caíram sobre os sapatos do seu amado. Ela olhou uma, e outra, e outra vez. Acenou. Ele não lhe dizia nada. Ela chamou-o. Ele parecia surdo. Ou mudo. Então acenou outra vez, mas nada. O outrora surdo ou mudo voltara a ser cego. Então, ela agarrou-se ao casaco dele. Puxou-o para ela. Ele parecia um saco de ossos. Ou talvez um boneco. Ela soltou um: "Não estou a gostar da brincadeira, porra!". Mas ele continuou a não responder. A agir como se fosse uma marioneta. Então pegou na guitarra. E começou a cantar e a tocar para ele. Porque eles se tinham conhecido por causa da música. Sempre foi a música que os uniu. E cantou a música que ele mais gostava. E ele nada. Cantou uma, e outra, e outra vez. Quando começou a ficar rouca, forçou ainda mais a voz. Quando já não conseguia falar sequer, encostou-se ao caixão e murmurou o mais alto que conseguiu, mas não o suficiente para que alguém ouvisse para além dele: "I love you, but now it's time for you to turn into dust". E abraçou-o uma última vez. E virou-se para o lado oposto. Os familiares, amigos, conhecidos, e até aqueles que lá estavam só porque sim, ou porque queriam despedir-se dele porque ele merecia, pela vida que havia vivido, embora curta, choravam com Teresa, enquanto ela se afastava do seu noivo.
- Enterrem-no de uma vez por todas - disse, friamente.
150 pessoas na igreja levantaram-se para fechar o caixão e levá-lo. Mas apenas o seu pai, o irmão e o pai de Teresa e o seu melhor amigo se dirigiram ao caixão. As restantes 146 pessoas dirigiram-se lentamente, pé ante pé, para a rua, com Teresa. E acompanharam-na até ao cemitério.
Quando chegaram à cova, e estavam prestes a enterrar Pedro, Teresa exclamou "Esperem!". Abriu o caixão, e juntou ao seu amado a sua guitarra. Fechou o caixão e disse: "Já podem".
Enquanto os coveiros preparavam Pedro para se juntar a tantos outros que ali jaziam, Teresa deixou uma folha de papel escapar pelos seus dedos. Uma amiga de ambos os noivos aproximou-se da pré-campa de Pedro e conseguiu ainda ler "I've been roaming around always looking down at all I see" no cimo da folha e "And now it's time to leave and turn to dust" no fundo.

domingo

"Não estás bem a ver! Imagina a caderneta. Na capa vai estar uma foto do gajo!"

Podem ter sido 16 horas de espera infinitas, e escaldões e calor até mais não. Apesar de tudo digo-o sem a mínima dúvida: foram das melhores 16 horas da minha vida. E por mais 16 horas que venham aí, na minha vida, vai ser difícil arranjar muitas 16 horas tão boas ou melhores que estas. E digo, portanto, que quando morrer vou morrer feliz :). Obrigado (:.